É comum as pessoas acharem que seus problemas financeiros desapareceriam se a renda fosse maior. Uma promoção, um novo cliente, uma renda extra ou um bom bônus parecem, à primeira vista, a solução definitiva. No entanto, meus mais de 12 anos como planejadora financeira mostram que, na prática, ganhar mais nem sempre traz o alívio esperado.
Para muitos, o dinheiro entra e o fluxo de gastos aumenta também. E dessa forma, a tranquilidade não chega. Daí vem a pergunta: mas porque isso acontece com tanta gente?
A armadilha do aumento do padrão de vida
Isso acontece porque a dificuldade raramente está apenas no valor da renda. Na maioria das vezes, ela está na forma como o dinheiro é tratado no dia a dia, nas escolhas e, principalmente, nas crenças que orientam essas decisões. Vamos aprofundar um pouco mais sobre isso…
Um dos fenômenos mais comuns é a armadilha do aumento do padrão de vida. Veja só: quando a renda cresce, os gastos costumam crescer junto. E lá se vai o ciclo se repetindo: um imóvel um pouco maior num bairro melhor, um carro mais confortável, escolas mais caras para as crianças, mais serviços e pequenas concessões que parecem inofensivas.
Mas, os gastos maiores não param por aí… O supermercado no bairro melhor costuma ser mais caro; os custos de IPVA e manutenção do carro aumentam e os passeios e festas das crianças são mais elitizados.
O resultado é que o orçamento continua apertado, mesmo com receitas maiores. E, esse aumento do padrão de vida costuma ser gradual e quase imperceptível, o que o torna ainda mais perigoso.
Falta de organização financeira
Quando a coisa aperta, a primeira pergunta que a pessoa se faz é: para onde está indo o meu dinheiro? Em outras palavras, ela ganha mais, mas parece que vive no mesmo aperto de sempre.
O ponto central aqui é a falta de clareza sobre para aonde o dinheiro está sendo direcionado. Sem acompanhar receitas e despesas, o dinheiro perde direção. E não se trata de planilhas complexas, mas de consciência.
Saber quanto entra, quanto sai e quais escolhas estão sendo feitas sempre foi um hábito básico das famílias financeiramente organizadas.
Inclusive, disponibilizo aqui no meu site uma planilha gratuita de fluxo de caixa. Ela pode te ajudar muito nesse processo de organização.
Falta de metas
A ausência de objetivos financeiros claros também contribui para esse cenário. Sem metas definidas, como formar uma reserva, reduzir dívidas ou planejar o futuro, guardar dinheiro perde o propósito. Os recursos passam a ser consumidos no presente, muitas vezes para compensar frustrações ou atender expectativas de terceiros.
Não é raro, ainda, que o aumento de renda venha acompanhado de novas dívidas. (lembre-se que, com um ganho maior, possivelmente você terá maiores limites de crédito). Nem preciso dizer que parcelamentos, financiamentos e compromissos fixos consomem rapidamente o ganho adicional e reduzem a sensação de liberdade financeira. É bem fácil se perder nesse processo.
Crenças sobre dinheiro
Além disso, o comportamento financeiro é fortemente influenciado por crenças profundas sobre dinheiro, formadas ao longo da vida. Algumas pessoas enxergam o dinheiro como algo moralmente errado ou fonte de culpa. Outras acreditam que ele é a solução para todos os problemas. Há ainda quem associe dinheiro a status, poder ou valor pessoal, ou quem viva em constante medo de perder o que tem.
Esses roteiros mentais operam de forma silenciosa e explicam por que duas pessoas com rendas semelhantes podem ter realidades financeiras tão diferentes.
Quando essas crenças não são questionadas e até ressignificadas, o aumento de renda apenas amplia padrões já existentes. Quem gasta para aliviar ansiedade tende a gastar mais. Quem busca validação por meio do consumo eleva o padrão de vida. Quem sente culpa em prosperar encontra formas de se desfazer do dinheiro. Assim, ganhar mais não resolve o problema, apenas muda sua escala. Já pensou nisso?
Para quem deseja entender melhor sobre a própria relação com o dinheiro, existe um teste simples, desenvolvido por pesquisadores da área de finanças comportamentais, que ajuda a identificar crenças que influenciam decisões financeiras no dia a dia. Não se trata de um diagnóstico, mas de um ponto de partida para reflexão. O teste pode ser acessado, clicando aqui.
Rever a forma como você pensa sobre dinheiro é um passo essencial. Sem isso, qualquer aumento de renda corre o risco de apenas reforçar padrões que já não funcionam agora.
Por isso, ganhar mais ajuda, mas não é uma solução isolada. Organização, disciplina e autoconhecimento são indispensáveis para transformar renda em segurança e tranquilidade.
Não enxergue o ganhar mais como a solução dos seus problemas. Prepare-se, busque educação financeira. Quando o aumento vier, você estará preparado e vai saber lidar melhor com isso.

