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A nossa relação com o dinheiro e as histórias que contamos para nós mesmos

Relação com o dinheiro

Quando pensamos na nossa relação com o dinheiro e com as finanças, o que nos vem à mente? Planilhas, orçamentos, investimentos e dívidas, certo? Pois é… Mas a verdade é que nossa relação com o dinheiro começa muito antes da primeira conta bancária.

Essa relação nasce nas experiências da infância, nas frases que ouvimos dentro de casa, nos medos, nas inseguranças e na forma como aprendemos a enxergar segurança, sucesso e valor pessoal. Sem perceber, vamos criando crenças sobre o dinheiro. Algumas ajudam e outras podem dificultar bastante nossa vida financeira.

O que a ciência descobriu sobre a nossa relação com o dinheiro?

Os psicólogos financeiros Brad Klontz e Ted Klontz chamam essas crenças de “money scripts”, algo como roteiros financeiros inconscientes que carregamos ao longo da vida. No livro publicado no Brasil “A mente acima do dinheiro”, os autores mostram como esses padrões emocionais podem influenciar nossas decisões financeiras muito mais do que imaginamos. Aliás, super indico a leitura!

Inclusive, eles disponibilizam gratuitamente um teste sobre esses perfis financeiros que vale a pena ser feito: Money Scripts Test

Achei interessante fazer o teste e refletir sobre meu próprio resultado. Meu perfil mostrou baixa associação entre dinheiro e status. Ou seja, não sou uma pessoa muito movida por aparência de riqueza, luxo ou necessidade de impressionar os outros financeiramente.

Por outro lado, tive pontuações altas em “Money Vigilance” e “Money Focus”, dois perfis mais ligados à preocupação com segurança financeira, responsabilidade e atenção constante ao dinheiro.

Confesso que esse teste fez bastante sentido para mim. Pois, sou planejadora financeira, trabalho diariamente com organização financeira e planejamento de longo prazo. Naturalmente, dinheiro ocupa um espaço importante na minha vida profissional, mas no meu dia a dia também. Tenho tendência a planejar, prever cenários, pensar no futuro e buscar segurança. Minhas filhas falam que eu sempre tenho uma planilha de planejamento para tudo! rsrsss

Isso aparece até em situações simples do cotidiano e outro dia percebi que faço isso até no crochê. Gosto de saber quanto fio será necessário (tenho uma balança daquelas de cozinha para calcular quanto fio usei e quanto ainda tenho), reaproveitar sobras e pensar na utilização do material para evitar desperdícios. Fico horas planejando o que farei com os restinhos de fio que sobram dos meus projetos! Inclusive, escrevi um texto sobre as lições financeiras que o crochê pode no ensinar. Clique aqui para acessar.

Vigilância na relação com o dinheiro

Parece apenas organização e talvez seja mesmo. Mas o teste me fez pensar como algumas características que nos ajudam também podem, em excesso, gerar dificuldade de relaxar.

Pessoas muito vigilantes financeiramente costumam ser disciplinadas e responsáveis. Em compensação, podem viver em estado permanente de alerta, como se sempre precisassem prever o próximo problema.

E aqui eu tive um insight interessante sobre mim mesma: percebi que tenho uma preocupação genuína sobre como será, no futuro, começar a gastar o dinheiro que venho acumulando e investindo ao longo de tantos anos justamente para me proporcionar tranquilidade financeira.

Parece contraditório, mas talvez não seja tão incomum assim. Quem passa muitos anos construindo patrimônio, poupando, planejando e investindo pode acabar se acostumando tanto à lógica de acumulação que a fase de usufruto também precisa ser aprendida.

Afinal, durante décadas o movimento foi sempre o mesmo: entrar recursos, poupar, investir e acompanhar o crescimento do patrimônio. Em algum momento da aposentadoria, porém, a lógica muda. O dinheiro começa naturalmente a sair mais do que entrar. E mesmo quando isso foi cuidadosamente planejado, emocionalmente pode não ser tão simples.

Achei curioso perceber isso porque, no fundo, economizamos justamente para poder utilizar esses recursos no futuro com mais liberdade, tranquilidade e segurança.

Por isso, lá atrás fiz um texto explicando as melhores formas de desinvestimento para o momento da aposentadoria que vale a leitura. Veja aqui.

E talvez essa seja a parte mais interessante dessa reflexão: perceber que a nossa relação com o dinheiro raramente é apenas racional.

Às vezes gastamos para compensar emoções, acumulamos por medo ou evitamos olhar para as finanças, porque aquilo gera ansiedade. Outras vezes nos tornamos excessivamente responsáveis, porque sentimos que precisamos manter tudo sob controle.

Entender esses padrões não substitui o planejamento financeiro, mas pode ajudar bastante a tornar esse processo mais leve, consciente e sustentável.

Porque, no fim das contas, dinheiro também fala sobre emoções, histórias de vida e sobre a forma como aprendemos a lidar com segurança, liberdade e pertencimento.

Transformar a relação com o dinheiro começa exatamente por aí: reconhecendo que os comportamentos financeiros que se repetem não são reflexos de crenças que foram construídas ao longo do tempo, e que podem ser ressignificadas. Quando entendemos de onde vieram esses padrões, fica muito mais fácil tomar decisões com mais clareza e menos culpa. E esse é, talvez, o primeiro passo real para uma vida financeira mais saudável.

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